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CORAÇÕES FERIDOS (Louisa Reid)


Eu não esperava muito de CORAÇÕES FERIDOS, mas o fim do livro foi uma grata surpresa e me surpreendeu por sua profundidade. Apesar da capa ser meio sinistra, o livro se mostra diferente disso.

Trazendo a trágica história da vida de duas irmãs gêmeas, Rebbeca e Hephzibah (não consigo quase nem pronunciar o nome mas seu significado é adequável com o que se vê no livro), filhas de um pastor que vivem na Inglaterra e tem uma rotina familiar envolta em mistérios e segredos. Uma das gêmeas, Rebecca, é portadora da Síndrome de Treacher Collins, e assim como o personagem principal do livro EXTRAORDINÁRIO, tem uma severa deformidade facial.

Logo no começo sabemos que Hephzibah está morta e agora, Rebecca está sozinha tendo de enfrentar toda a escuridão que paira em sua casa. A grande maravilha do livro, em sua primeira parte, é a divisão da narrativa entre as perspectivas de Rebecca, nos contando o pós-morte de Hephzibah; e de sua irmã, Hephzibah, nos contando o período anterior a sua morte. Deste modo, sabemos em capítulos alternados, o que aconteceu com Hephzibah e como Rebecca está lidando com a morte da irmã, o que faz sua estrutura funcionar sem deixar cacos.

O interessante é perceber como as duas narram os acontecimentos: Hephzibah é bonita, quer ter uma vida normal, ser feliz, e, principalmente, encontrar um meio de sair de sua casa e se livrar de seus pais, mesmo que para isso tenha de deixar Rebecca de lado, pois  sua entrada no colégio é a chance que ela tem de se destacar e conseguir o que quer, sem ser associada à irmã estranha, com sérios problemas de formação da face pode ser um problema. A primeira impressão é ruim devido às suas ações, mas, será que posso julgá-la por querer de todas as maneiras fugir de um lar que mais se parece com uma prisão? Não, não posso condená-la, e, há os momentos em que se preocupa com Rebecca, e sonha ser possível, quando ela conseguir fugir, também voltar e resgatá-la.

Já Rebecca é uma personagem mais complexa, que tem uma carga maior para carregar: ela sabe que incomoda, que sua aparência é desagradável, e que nada pode fazer para mudar isso. Apesar de parecer frágil, Rebecca é de uma força quase inacreditável, com um caráter que se sobrepõe de tal maneira que é impossível não criar com ela uma ligação de afeto que passa longe do “coitadinha! ela é deficiente!”, mas, sim, reconhece seus esforços, mesmo os mais simplórios e ingênuos.
Gostei do que a autora construiu. As revelações, os desdobramentos, tudo vai surgindo de forma crescente o que prende o leitor a cada página. Se a gente entende logo que há algo errado no pai pastor meio louco, não somos capazes de imaginar até que ponto vão seus abusos. Com sua narrativa, ela nos faz sofrer com as irmãs, nos sentimos isolados com elas; a solidão, o medo o desespero, o clima denso de catástrofe que sempre ronda as duas, tudo é palpável e nos atinge.


É um livro bem escrito. Gostaria de ser surpreendida dessa maneira na maioria do tempo...

“Hoje tentaram me fazer ir ao funeral de minha irmã... Ela sempre foi maior. Nasceu primeiro, mais forte, mais bonita, a gêmea popular. Eu vivi à sombra dela por 16 anos e gostei do frio e da escuridão; era um lugar seguro para esconder-me... Era o primeiro dia do ano-novo, e minha irmã estava morta havia uma semana.” Pág 11
“Quando eu era transportada para o Morro dos Ventos Uivantes ou para o centro de Los Angeles, ficava feliz, meu mundo recuava e, por 40 minutos, a realidade ficava suspensa em algum lugar acima da escola, como uma bexiga preta esperando o sinal de estourar.” Pág 31 

Louisa Reid formou-se em Inglês pela Hertford College, em Oxford. Além de escritora, é também professora em Cambridge. Casada, e com duas filhas, ainda assim costuma acordar e dormir pensando em livros.

Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. A última vez que fui na livraria anotei o nome desse livro pq gostei muito da sinopse, agora vou querer ler mais ainda.
    Bjs

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  2. Estou apaixonada por esse livro. É realmente interessante ver as perspectivas das duas irmãs, só de perceber os problemas enfrentados pelas duas tentando superar seus traumas dá vontade de chorar. Imagina quando eu começar a ler... Parece ser emocionante... A capa é muito bonita deixa um ar de sobriedade e tristeza, muito bom. Espero lê-lo em breve.

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  3. Adoro livro que mostram a perspectiva das personagem envolvidas na história , não só a visão da personagem principal. É o caso de corações feridos. Deve ser fascinante ter a noção do que está envolta das irmãs e de como Rebecca lida tanto com sua deformação facial e a morte de sua irmã.Além de falar sobre uma síndrome que provoca a deformação facial, já que na sociedade em que vivemos a aparência vale mais do que o carácter. Fiquei imaginando se o pai abusivo não faz isso para proteger as filhas ou é só por pura loucura. Com certeza esse livro vai para minha lista de " vou ler".

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